Meninas leem, enquanto meninos fazem contas

Pesquisa internacional com alunos de 15 anos comprova diferença de aptidão por gênero, mas especialistas veem razões culturais

Fonte: O Globo (RJ)
Comentário Solar Colégios

 

A publicação feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com dados coletados em 65 países parece indicar que outros fatores, além dos culturais podem ser levantados para entendermos a diferença de performance entre meninos e meninas nas habilidades avaliadas no PISA 2012.

O fato de estarmos trabalhando com uma amostragem tão ampla (em termos culturais e socioeconômicos) com resultados tão semelhantes nos leva a considerar que também fatores neurobiológicos podem estar envolvidos. Entendemos que as diferenças neurobiológicas que existem entre os sexos não significam uma maior capacidade para nenhum dos grupos, mas sim que apontam para um amadurecimento fisiológico em tempos distintos.

A educação singular ao adotar estratégias pedagógicas diferentes para meninas e meninos, pode ajudar a que, ambos, desenvolvam melhor suas habilidades predominantes, no período mais favorável. Além disso, essa atenção diferenciada é válida também para o desenvolvimento de habilidades que, pelo motivo que seja, não são consideradas pontos fortes para cada um dos sexos.

De fato, há pesquisas publicadas pela National Association for Single-sex Public Education que demonstram que meninas que estudam em colégios singulares atingem melhor performance em matemática do que meninas que estudam em colégios mistos. Do mesmo modo, meninos que estudam em colégios singulares sobressaem mais na área de linguagem em comparação do que aqueles que estudam em colégios mistos.

A educação singular vem, portanto, ajudando a derrubar o estereótipo de que meninas geralmente seguem profissões ligadas às humanidades e os meninos se dedicam à área de exatas. Lore Hoffman da Universidade de Kiel explica que com a educação singular, as meninas se interessem mais pelas “típicas matérias de meninos, como a informática, a química ou a matemática, já que essas aulas estão orientadas segundo as suas necessidades”. As meninas se sentem mais confortáveis e confiantes para escolher profissões alcunhadas pela sociedade como “masculinas”.

Numa escola singular não se dá margem a considerar que as mulheres (ou os homens) são menos aptas (ou aptos) para algumas matérias: tanto alunas como alunos percebem que a escolha de carreiras tradicionalmente atribuídas ao outro sexo, não afetam em nada sua feminilidade ou masculinidade, mas correspondem à sua inclinação pessoal e ao bom desenvolvimento de suas capacidades.

Acreditamos que a expansão da proposta pedagógica da educação singular venha a contribuir significativamente para a diminuição de resultados como o registrado pela recente publicação da OCDE.

 

De um lado, meninas com melhor desempenho em leitura. Do outro, meninos com performance superior em matemática. O quadro, que muita gente já observou, é comprovado em números numa recente publicação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com base em dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) 2012. Jovens de 15 anos que vivem 65 países participam da análise, e uma das conclusões é que o hiato se deve menos à capacidade e mais às diferenças de autoconfiança de meninos e meninas na hora de aprender.

Os dados da publicação “Meninos e meninas estão igualmente preparados para a vida?” mostram que garotas superam garotos em leitura numa proporção que equivale a um ano inteiro de Escola, em média. Já os adolescentes do sexo masculino, por sua vez, estão à frente em matemática cerca de três meses. E 15% dos meninos, mas apenas 11% das meninas, atingem os níveis mais altos na disciplina. No Brasil, meninos estão 18 pontos à frente em matemática.

A publicação afirma que “a confiança de estudantes em suas habilidades e motivações em aprender tem um papel central em moldar sua performance em assuntos acadêmicos específicos”, acrescentando que a percepção das meninas a respeito do seu próprio aprendizado em números determina quão bem elas motivam a si próprias.

A avaliação é confirmada por especialistas em Educação, que sustentam: questões culturais são determinantes no aprendizado.

– Não há nada que comprove cientificamente que os homens têm mais capacidade nas ciências exatas, mas, historicamente, é o que vemos. Na minha geração, a mulher era formada para ser Professora – opina Bertha do Valle, Professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para Norma Lúcia de Queiroz, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), a diferença no aprendizado começa na Alfabetização:

– O dado a respeito da leitura é coerente e pode ser observado no início da Escolarização. Num projeto do Observatório da Educação da UnB, de 20 Alunos com dificuldade em Alfabetização, 18 são meninos.

 

Capazes e sem autoconfiança
A publicação da OCDE indica ainda que muitas meninas escolhem não seguir carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática por não confiarem em suas habilidades na área, “apesar de terem capacidade e ferramentas para fazer isso”. Apenas 38% das meninas, mas 53% dos meninos, planejam seguir carreira que envolva matemática. Por outro lado, meninas são representadas em excesso entre estudantes que imaginam trabalhar na área de saúde e ciências sociais.

É o caso de Giovanna Ribeiro, de 15 anos, aluna do 1º ano do colégio carioca Mopi. Desde pequena, a menina prefere as lições de história e gramática. Para a vida adulta, planeja uma carreira em Direito ou Medicina.

– Eu sempre odiei matemática. Não entra na minha cabeça, fico nervosa na hora de fazer a prova – conta.

Já Luiz Henrique Alves, do 2º ano do também carioca Pensi, é o clássico caso do menino que tem notas melhores nas matérias que envolvem cálculos e sonha com uma faculdade de Engenharia.

– Em matemática costumo tirar 9. Já nas outras matérias, em geral, fico entre 7,5 e 8 – explica o menino, que frequenta aulas preparatórias para concursos militares, cuja relação é de 20 rapazes para cada 10 garotas em sala.

Para Márcia Malavasi, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), muitas vezes as escolhas profissionais estão ligadas à crença de que as meninas são inclinadas “a desenvolver relações interpessoais”:

– Meninas são muito mais orientadas para carreiras de ciências humanas. Isso tem a ver com o fato de a sociedade acreditar que elas são mais capazes de fazer doações psicológicas, o que é uma visão equivocada que vem da história de servidão das mulheres aos homens.

A Professora acrescenta que há menos mulheres ocupando cargos que exigem o domínio de exatas. E, mesmo quando elas ocupam essas posições, ganham salários mais baixos.

– Isso ocorre até em países desenvolvidos. É um percurso social que a humanidade ainda terá de fazer – afirma.
Esforço coletivo para mudar

Na publicação, a OCDE destaca que a diferença entre os sexos no desempenho em matemática se manteve estável na maioria dos países desde 2003, assim como a diferença de gênero na autoconfiança. Segundo a organização, a redução do hiato de gênero no desempenho vai exigir, a longo prazo, o esforço de pais, professores e sociedade para mudar noções estereotipadas.

A curto prazo, pondera a OCDE, pode ser necessário tornar a matemática mais interessante para meninas, identificando e eliminando os estereótipos de gênero nos livros didáticos.

Norma Lúcia, da UnB, concorda e diz que o mesmo pode ser feito em relação ao interesse de meninos pela leitura:

– Nós, Professores, precisamos investigar se as atividades que proporcionamos na Escola têm a ver com isso. Será, por exemplo, que as meninas não se identificam mais com o tipo de história que costumamos ler em sala de aula? Talvez sejam necessárias práticas pedagógicas diferentes para meninos e meninas.