Diversidade na hora de avaliar

Diversidade na hora de avaliar

Especialistas defendem a adoção de instrumentos complementares à prova no momento de determinar o desempenho dos estudantes

Comentário Solar

As propostas curriculares atuais, bem como a legislação vigente, primam por conceder grande importância à avaliação, reiterando como ela deve ser: contínua, formativa e personalizada, além de concebê-la como mais um elemento do processo de ensino aprendizagem, o qual nos permite conhecer o resultado de nossas ações didáticas e, por conseguinte, melhorá-las.

O artigo ressalta a importância de se entender avaliação como parte de um processo que privilegie o desenvolvimento do aluno ao longo do tempo e que traga benefícios como a autonomia, a habilidade de enfrentar problemas e o fomento de uma posição menos individualista.

Assim trabalhamos nos nossos colégios, com uma avaliação global e formativa que se fundamenta nos processos de aprendizagem do educando, em seus aspectos cognitivos, afetivos e relacionais, considerando-o como protagonista da própria aprendizagem.

Conforme comenta o artigo, também utilizamos estratégias variadas, que levam o aluno a refletir e desenvolver o autoconhecimento por meio de uma reflexão como: “o que eu sei?”, “o que não sei?”, “por que não sei?”, “o que preciso fazer?”. Desta forma, juntamente com a assessoria do professor e um plano de estudo pessoal, o aluno se propõe metas de melhora, passando a ser competitivo consigo mesmo.

Dentre as formas de avaliar o próprio aprendizado, nos nossos colégios, podemos destacar o Guia de Trabalho Autônomo, um instrumento que facilita ao professor a adaptação do processo de ensino/aprendizagem à variedade de ritmos de trabalho de seus alunos, favorecendo suas progressivas autonomias.

Ao elaborar o Guia de Trabalho Autônomo, o professor leva em consideração todos os elementos da Programação da Unidade Didática correspondente. Inclui atividades de diversos tipos – de iniciação, de exploração, de integração, de criação, de fixação e de aplicação –, mas que sempre tenham sentido para o aluno.

Ao finalizar cada tarefa, avalia-se sua realização, que pode ser feita pelo aluno mostrando ao professor ou a algum colega designado para essa função, ou através da autoavaliação de diferentes formas: geralmente utiliza-se um gabarito que permita ao aluno contrastar o processo e os resultados de seu trabalho com um modelo. Esse método, além de ter uma grande força formativa, também provoca a reflexão sobre o próprio modo de aprender, a finalidade, o significado e a profundidade das aprendizagens pretendidas ou realizadas conduzindo o aluno a ser consciente de seus êxitos e de seus erros, o quanto antes, e favorecendo a autoavaliação frequente.

É verdade, como diz o artigo, que a avaliação processual respeita a capacidade do estudante e requer um trabalho muito mais especializado. Por isso, capacitamos os nossos professores para serem educadores que oferecem um acompanhamento acadêmico pessoal a cada um dos seus alunos, não apenas no que se refere aos conhecimentos adquiridos, mas também quanto à aquisição de hábitos e técnicas de trabalho, isto é, ao grau de desenvolvimento das destrezas intelectuais e de interiorização dos valores. É claro que o desenvolvimento cognitivo e moral não podem ser medidos com a mesma objetividade com que são medidos os conhecimentos práticos, entretanto é muito importante valorizar qualitativamente os progressos que os alunos fizeram em seu desenvolvimento pessoal. A observação sistemática do comportamento e do trabalho dos alunos em diversas situações da vida escolar será a melhor ferramenta para avaliar esses aspectos.

A participação dos alunos – de acordo com a sua maturidade – no planejamento, análise e avaliação de sua aprendizagem, tanto procedimental (desenvolvimento cognitivo) como atitudinal (desenvolvimento moral), facilita o progresso em seu modo de pensar e de agir. Além disso, essa participação estimula sua responsabilidade, uma vez que o estudante está plenamente consciente do que faz, e por que faz, assim como as vantagens desse procedimento.

Fonte: Correio Braziliense (DF)

Para evitar a ansiedade de aguardar o dia da prova e os momentos de tensão a cada exercício que precisa ser resolvido, muitas Escolas adotam instrumentos de avaliação alternativos, como trabalhos em grupo e montagem de portfólio. Especialistas destacam que essa é a melhor forma de garantir o aprendizado e esses instrumentos devem ser aliados ao modelo tradicional, que prepara o estudante para os processos seletivos a serem enfrentados na vida adulta.
“As provas e os exames são procedimentos atrelados a uma perspectiva mais tradicional, conservadora e autoritária. É preciso achar formas (de avaliação) que superem essa visão, que é mais passadista”, defende o Professor Odilon Carlos Nunes, do Departamento de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo ele, essa maneira de medir os conhecimentos adquiridos pelo Aluno favorece a memorização e é mais burocrática. Por isso, deve ser usada em conjunto com uma avaliação processual, que privilegie o desenvolvimento do Aluno ao longo do tempo.
Entre os benefícios dessa combinação, ele lista a autonomia, a habilidade de enfrentar problemas e o fomento de uma posição menos individualista. Também é um modelo mais justo, segundo ele, que categoriza menos o Aluno, além de estimulá-lo. “Provas e exames, quando existirem, devem ser encarados como medidas numéricas, e não mais do que isso”, destaca.
Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF), lembra que é importante levar em consideração também a função de cada avaliação. Se o intuito é que o estudante adquira habilidades e competências dentro de um contexto que não é eliminatório, é opcional que se dê uma nota para o desempenho dele. Se o objetivo é prepará-lo para um concurso ou para o vestibular, torna-se necessária uma avaliação quantitativa. “Sempre vai existir a competição, pois é preciso selecionar as pessoas”, avalia.

Ensino diferente

No Colégio Arvense, que recebe Alunos até o 5º ano do Ensino fundamental, as avaliações são variadas, incluem trabalhos em grupo e a montagem de portfólios, prova oral e o registro individual do Aluno, que reúne comentários do Professor sobre cada um dos estudantes. “Cada indivíduo tem uma forma única de aprendizagem, e o Professor não pode delimitar o que o Aluno vai aprender”, explica a diretora Educacional do colégio, Margareth Nogueira.
As provas não são tratadas da maneira tradicional, ganham até outro nome: momento privilegiado de estudo (MPE). Os Alunos resolvem os exercícios em grupo e podem consultar o material. Todas tratam um tema único para, a partir dele, abordar os conteúdos ensinados em sala de aula. A Professora do 5º ano Kaelly Ornelas afirma que o método é diferente dos demais, mas muito eficiente. “Desperta na criança a habilidade crítica e ela se torna mais autônoma”, observa.
Os Alunos Ana Sofia Brandão Souza, 10 anos, e Lucca Schoen, 9, relatam que não sentem muita ansiedade na hora de fazer a avaliação. “Se for uma matéria que eu não entendo bem, eu fico só um pouquinho nervoso”, revela Lucca. Ana Sofia lembra que as autoavaliações, feitas a cada três meses, também contribuem para o desenvolvimento Escolar. “A gente pensa no que já fez de bom e no que pode melhorar. Ajuda bastante no próximo ano”, diz.
A mãe de Lucca, a servidora pública Tábatha Schoen, 37 anos, gosta do método de Ensino que foge do tradicional, pois acredita que o filho é muito novo para enfrentar esse tipo de pressão. “Acho que o mais importante para ele agora é a formação como cidadão. Se você está preparado para a vida, o resto — Enem, Sisu, vestibular — vai tirar de letra”, afirma. “E isso não quer dizer que tenha menos conteúdo, às vezes, numa simples brincadeira, ele está aprendendo valores muito mais importantes”, completa.

Qualidade

A legislação brasileira já determina que a avaliação qualitativa se sobreponha à quantitativa, como uma forma de evitar o rigor aritmético na hora de avaliar o estudante (leia O que diz a lei). “Mas essa avaliação processual, mais individualizada, que respeita a capacidade do Aluno, requer um trabalho muito mais especializado e capacitação dos Professores”, destaca o presidente do Sinepe/DF, Álvaro Domingues. Ele diz que o processo de formação de Professores no Brasil deixa a desejar em muitos aspectos e um deles é a forma de avaliação.
A pesquisadora Cacia Rehem, Professora do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), explica que, além dessa lacuna na formação dos Professores, eles acabam por reproduzir em sala de aula a forma como foram avaliados durante a própria vida Escolar e acadêmica, que é a prova.
Cacia desenvolveu um modelo de avaliação processual e o implantou nas séries iniciais do Ensino fundamental de uma Escola particular da Bahia, em 2011. Os resultados já podem ser percebidos. “A autoestima das mães e dos Alunos aumenta. Elas vão buscar o relatório (do Professor) para saber o que está sendo discutido, e a criança não é mais tratada como incapaz, mas sempre como um Aluno que está crescendo.”
No Instituto Natural de Desenvolvimento Infantil (Indi), as formas de mensurar o aprendizado do Aluno incluem seminário, assembleia, discussão em grupo, provas surpresa e oral, avaliação do Professor e autoavaliação. A diretora geral e Pedagógica, Júlia Passarinho, explica que são usados pelo menos cinco instrumentos avaliativos até o 5º ano do Ensino fundamental e três a partir do 6º ano. Além disso, nos anos iniciais dessa etapa do Ensino, não são aplicadas provas, apenas exercícios.
Segundo a diretora, a metodologia de avaliação adotada preza também pelos conteúdos de formação do sujeito, como ética e respeito, o que contribui, na opinião dela, para que o Aluno saiba buscar soluções e se torne mais perspicaz, características que ajudam em avaliações futuras. “O Aluno se sai muito melhor numa redação, porque tem mais capacidade argumentativa”, detalha.
A Escola Politeia, de São Paulo, adota um modelo mais radical e não aplica provas aos Alunos. Lá, pratica-se a Educação democrática, com foco na autonomia e na emancipação dos estudantes. Do 1º ao 9º ano do Ensino fundamental, os Alunos desenvolvem pesquisas com grupos de estudo que se reúnem, durante dois meses, baseados em um tema de interesse — não se segue um formato de aula. De acordo com o Educador Osvaldo Souza, a intenção é que cada um aprenda no próprio tempo. “Não faria sentido trabalhar com o conceito de prova, pois ela equaliza os estudantes”, afirma.

Os resultados do modelo tradicional
As Escolas que seguem um modelo mais tradicional e dão ênfase às notas e às provas com data marcada também alcançam resultados positivos. No Colégio Militar de Brasília (CMB), por exemplo, mais de 150 Alunos entre os cerca de 500 matriculados no 3º ano do Ensino médio foram aprovados, este ano, na Universidade de Brasília ou pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS), ou pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o que corresponde a cerca de 30% de aprovação. No total, 200 passaram em instituições públicas.
O chefe da Seção Técnica de Ensino do CMB, Major Aragão, explica que a prova tradicional — chamada de avaliação de estudo — ocorre no fim de cada bimestre e é aplicada a todas as turmas, do 6º ano do Ensino fundamental ao 3º ano do Ensino médio. Há também a avaliação parcial, que pode incluir um questionamento do Professor para saber o domínio do Aluno sobre determinado assunto ou um trabalho em grupo, por exemplo.
Ele acredita que os resultados desse modelo de Ensino se refletem não só no Enem ou no vestibular como também no bom desempenho que os estudantes mostram nas olimpíadas de conhecimento. Além disso, Aragão acredita que é uma maneira de preparar o jovem para a vida adulta, tanto profissional quanto acadêmica. “Desde cedo, ele vai vendo que quem estuda mais é colocado em destaque”, afirma.
No entanto, mesmo no CMB, as características das provas têm mudado e estão cada vez mais interdisciplinares, em parte por influência do modelo de habilidades e competências adotado no Enem. “Hoje em dia, não se comporta mais a abordagem conteudista”, diz. “Não fazemos mais o mesmo tipo de prova de 10 anos atrás, tentamos refletir o cotidiano do Aluno”, completa. (MN)

Interdisciplinaridade

A prova do Enem não é dividida em conteúdos clássicos — como português, matemática e geografia. Ela traz cinco áreas do conhecimento que englobam essas disciplinas. Cada área deve avaliar cinco eixos cognitivos — entre eles, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema e construir argumentação — e as competências definidas no edital, que variam de uma área para outra.