Crise da pré-adolescência: como ajudar seu filho(a) a enfrentá-la?

Entre os 8 e 12 anos algumas crianças parecem já começar a entrar na adolescência, e assim passam a oscilar entre as crises de choro e os abraços apertados. A seguir, encontre alguns conselhos para ajudar os seus filhos a viver essa fase de forma tranquila

 

 

Essas conversas são comuns na saída da escola: “Não reconheço mais o Cipriano! Ele bate a porta, grita ou fica de mau humor, ataca os irmãos”. Florence, que está muito preocupada, não sabe mais o que fazer com seu filho de 9 anos. Clara, por sua vez, está desorientada com a sua filha de 10 anos: “Eugênia é hipersensível, fica chateada por nada. Ela passa horas na frente do espelho, sonha em se maquiar e se vestir como uma universitária. Os outros já a observam”. Um pai acrescenta: “Cosme se envolve em todas as discussões, analisa, critica sem parar. Já é um verdadeiro pré-adolescente!”. Pré-adolescência: a palavra foi lançada! Será que ela é uma invenção dos pais orgulhosos em ter filhos “quase adolescentes”, ou apenas uma jogada de marketing, a fim de encontrar novos consumidores para diversos produtos?

Para as psicólogas Bernadette Lemoine e Véronique Lemoine-Cordier, as crianças realmente mudaram dramaticamente nos últimos anos. Precisamos estar cientes e levar isso em consideração. “Na prática clínica, sinto que as crianças são muito diferentes”, diz Véronique Lemoine-Cordier. “Eles são hiperestimulados por uma sociedade que avança extremamente rápido. Eles participam de tudo o que acontece no mundo adulto desde muito cedo e dominam os meios técnicos melhor do que nós. Eles são mais espertos e percebem o que lhes interessa muito rapidamente. Tudo isso faz com que eles queiram crescer muito mais rápido”. Mesmo assim, ela poderá: “Nessa fase eles passam por uma revolução cognitiva, mas sua maturidade emocional e fisiológica não é tão rápida”. Então, como ajudar esse pequeno “mutante” a crescer? Comece por não considerá-lo um adolescente, responde a psicóloga.

Forneça um ambiente enriquecedor

Para o padre Xavier Piron, dos 8 aos 12 anos, “a criança já saiu da primeira infância e por isso ela tem a impressão de que o mundo lhe pertence. Ela se imaginará como um cavaleiro, um piloto, terá grandes sonhos. Bastante alegre, cheia de iniciativa, ela deseja prontamente ser útil e não quer ser desapontada”. Anne Kolly, professora e formadora Montessori, observa crianças há mais de vinte e cinco anos: “Nesta faixa etária, elas procuram as chaves para compreender o mundo e assim poder explorá-lo, interessam-se pelo universo, pela história da Terra. Elas já têm uma grande capacidade intelectual e podem compreender conceitos complexos. Elas também experimentam a vida social”. Esta é a fase dos grupos, códigos e exclusões. Cipriano tende a se isolar quando está em casa, mas tem um bom grupo de amigos na escola e no rúgbi. “A criança começa a exigir espaço, liberdade para se construir, para desenvolver sua inteligência. Para que essa energia vital se desenvolva, é fundamental que a escola e os adultos, a proporcionem um ambiente rico e estimulante. Caso contrário, a criança pode ficar apática ou difícil de lidar”.

É difícil hoje em dia deixar um pré-adolescente se divertir sozinho na natureza, para atender sua necessidade de independência! Mas atividades como o escotismo ou acampamentos em grupo podem ser uma excelente saída. Eles são levados a assumir riscos medidos dentro de uma estrutura específica. “A liberdade não pode ser imaginada sem responsabilidade”, lembra o treinador Montessori. Cipriano quer ir sozinho de bicicleta para a casa de seus amigos a poucos quilômetros de distância. Uma boa saída é que seus pais o acompanhem pela primeira vez, mostrando os perigos que podem surgir, e deem uma hora para o seu retorno. Cuidado para não dar à criança uma liberdade que ela não pode assumir, avisa o padre Piron: “Não confiaríamos uma faca de cozinha a uma criança de 4 anos, por isso, também não devemos deixar sozinha na frente do computador a criança de 12 anos”. Também para Bernadette Lemoine, a liberdade é condicional: “É preciso ser firme com a criança, explicar-lhe que impor limites é protegê-la e que aos poucos iremos confiar cada vez mais nela”.

Ajude o pré-adolescente a verbalizar o que está sentindo, sem nunca julgá-lo

Outro ponto essencial e desafiante é educar para a frustração, em uma sociedade que oferece todos os tipos de prazeres imediatos. “A criança é manipulável, por isso é fundamental que ela aprenda a escolher o que é bom para ela, mesmo que o que é bom não seja aquilo que ela deseja fazer. O que entra em jogo é a educação da vontade”, aconselham Bernadette Lemoine e Véronique Lemoine-Cordier. Dar à criança tudo o que ela pede é mantê-la na ilusão da onipotência.

Ao aprender a escolher e buscar o que é bom pra ela, a buscar o que é verdade, a criança irá gradualmente dominar sua afetividade e administrar suas emoções. Véronique Lemoine-Cordier explica: “O pré-adolescente é muitas vezes hipersensível, emocionalmente frágil. Ele pode ter uma reação desproporcional a uma situação agradável ou desagradável. É importante ajudá-lo a verbalizar o que está sentindo, sem jamais julgá-lo”.

Finalmente, seu equilíbrio depende da autoridade equilibrada dos pais. Se os pais souberem como estabelecer as regras e não tiverem medo de estabelecer uma relação de autoridade para com seus filhos, eles crescerão em segurança. “A palavra ‘autoridade’ tem a mesma raiz da palavra ‘tutor’, conclui Anne Kolly. Sem ele, a criança é incapaz de se construir e crescer em direção à luz”.