Baixo desempenho do Brasil em teste da OCDE revela também desigualdade de gênero na educação

Comentário Solar:

Novos horizontes no cenário educacional

A recente análise da OCDE aponta para resultados acadêmicos preocupantes para nós brasileiros. Na última avaliação Pisa de 2012 – a próxima será em 2015 – o desempenho de adolescentes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, mostra que o percentual de meninos com baixa pontuação nos testes é de mais de 45%, enquanto meninas ficam abaixo de 40%. Além disso, ainda segundo a pesquisa, em nível mundial apenas 14% das mulheres jovens que entraram na universidade pela primeira vez em 2012 escolheram campos relacionados à ciência, incluindo engenharia, indústria e construção, enquanto o percentual masculino foi de 39%. Tais dados estatísticos vêm se somar a muitas outras pesquisas realizadas pelo mundo e vêm aumentar os questionamentos de muitos educadores sobre como promover uma efetiva igualdade de opções para meninos e meninas.

Cada vez com mais clareza, põe-se de manifesto que um grande desafio para a educação do século XXI é a construção da cultura da igualdade. Como garantir ou pelo menos favorecer que meninos e meninas tenham de fato as mesmas possibilidades de escolha?
Há pelo menos meio século atrás, a universalização da educação mista tinha como proposta oferecer à sociedade essa possibilidade. Uma esperança de igualdade e, ao mesmo tempo, de respeito às diferenças. De fato, temos que agradecer a eclosão da escola mista. Sabemos que no passado a educação era segregadora, reproduzindo, claramente, a sociedade de então, onde os dois sexos tinham papeis bem definidos e desiguais. No entanto, passados já tanto tempo, encontramo-nos pensativos diante de resultados estatísticos como os referidos pela OCDE. E aqui, nem convém analisarmos o aumento da violência escolar ou da elevação das taxas de evasão ou mesmo das situações de bullying, etc.

Alguém poderia perguntar-se, diante desse panorama, se a educação mista é um modelo de organização escolar que não deu certo? Logicamente, a resposta é não. Temos muito a agradecer a escola mista. Basta considerar que você, que agora lê esse comentário, estudou numa escola com esse modelo organizacional. A educação mista é um modelo que veio para ficar. No entanto, é somente mais um modelo e, como tal, devemos reconhecer suas fortalezas e fraquezas. Talvez o nosso equívoco seja exatamente considerar esse modelo como o único modelo apto para educar a nós e a nossas crianças.

A intenção desse comentário não é realizarmos uma análise das fraquezas e fortalezas da educação mista. Nossa intenção é ampliar o horizonte de análise, dirigindo o olhar para outros possíveis modelos de organização escolar.

Com o impulso da Neurociência

Um fato, que vem respaldado pela neurociência, é que meninos e meninos, portanto, homens e mulheres apresentam diferenças quanto à morfologia e a fisiologia cerebral.

Para Lawrence Chill, doutor em Neurociência e professor do Departamento de Neurobiologia da Universidade Irvine na Califórnia, os cérebros de homens e mulheres são diferentes tanto em sua arquitetura como em sua atividade (His brain, her brain, Scientific American, 292 (5), 40-47, 2005). Tal constatação não implica em uma maior ou menor inteligência, mas sim, nos indica que meninos e meninas têm ritmos distintos de aprendizagem e modos próprios de processar a informação recebida.
Jay Giedd, psiquiatra do National Institute of Health em Washington, um expert sobre o desenvolvimento cerebral infantil, demonstrou que a parte do cérebro destinada às habilidades da fala, localizada no hemisfério esquerdo, amadurece primeiro nas meninas do que nos meninos. Estudos com escanner cerebral demonstraram que a maturidade neurológica da parte do cérebro envolvida nas funções verbais em uma menina de quatro anos equivale a de um menino de seis anos.

Outros estudos demonstram que a coordenação dos dedos (a motricidade fina) progride mais lentamente nos meninos do que nas meninas. A partir dos três anos, enquanto meninos controlam melhor a musculatura axial, isto é, a que está mais próxima do tronco, as meninas controlam melhor a musculatura digital.

A consequência de tudo isso é que, em sala de aula, notamos, normalmente, uma superioridade feminina na leitura e na escrita durante os primeiros anos de escolaridade. Isso tem uma enorme transcendência, pois as matérias mais importantes nestas etapas escolares são precisamente as relacionadas com o uso da linguagem. É importante levar em consideração estas diferenças, para podermos apoiar melhor nossos meninos, que atualmente são os protagonistas dos maiores déficits em compreensão leitora.

Por outro lado, a habilidade espacial é uma característica unida ao efeito que exerce a testosterona sobre o cérebro masculino. Atualmente, os cientistas acreditam que a arquitetura cerebral, responsável pela agudeza espacial, se forma no período gestacional sob o influxo da testosterona fetal. E quando a testosterona “invade” o cérebro masculino na puberdade, essa tendência se amplifica. É uma realidade vivenciada no dia a dia escolar que os rapazes, especialmente a partir do ensino médio, gozam de maior facilidade para o pensamento lógico-matemático.

Pesquisas e estatísticas demonstram como os meninos costumam mostrar na classe e em casa um comportamento dominante quanto ao espaço que ocupam. Joanne Rodkey, diretora de Woodward Avenue Elementary School, considera evidentes estas diferenças. Segundo sua experiência, o primeiro dia de colégio, numa sala de seis anos, as meninas se sentam sempre em suas carteiras esperando tranquilamente as orientações das professoras, enquanto os meninos vão de mesa em mesa explorando a sala. A razão deste dinamismo masculino, segundo Michael Gurian, encontra-se em que os meninos aprendem conforme os parâmetros espaciais de seu cérebro. “Se os professores e pais não levam em consideração que os meninos precisam de mais espaço do que as meninas para aprender, inevitavelmente serão considerados mal-educados e incorrigíveis”, diz Gurian.

Novas possibilidades

Dentro dessa nova ótica, desde o final dos anos oitenta, vem crescendo no mundo a experiência das escolas single-sex. Muito diferente dos modelos de escolas só para meninos ou só para meninas que existiram no passado, a educação single-sex no século XXI trabalha com a mesma proposta curricular. A exigência acadêmica é, portanto, a mesma. A diferença é que as estratégias pedagógicas utilizadas levam em consideração os ritmos distintos de aprendizagem e modos próprios como cada sexo processa a informação recebida. Tudo aquilo que pedagogicamente puder favorecer as características distintivas de cada sexo é um ganho no processo de ensino- aprendizagem.
Os resultados não tardaram em chegar. O monitoramento realizado pela National Foundation for Educational Research, nos últimos vinte anos, nas escolas single-sex norte-americanas, mostra que os resultados dos colégios que adotam este modelo são consideravelmente melhores – até 1/3 mais elevados do que nos colégios mistos.

Porém a escola single-sex vai mais além. Recentes pesquisas feitas por NCGS (National Coalition of Girls’ Schools) mostram que as alunas egressas de escolas single-sex são seis vezes mais propensas a escolher carreiras nas áreas de Ciência, Tecnologia e Matemática, e três vezes mais propensas a escolher carreiras de Engenharia do que alunas egressas de escolas mistas. NCGS reuni hoje 165 escolas single-sex femininas nos Estados Unidos e mais 34 outras espalhadas por Canadá, Austrália, Espanha, Inglaterra e Japão.

O modelo de escola single-sex parte precisamente da ideia de que não há papeis previamente determinados para cada sexo, mas que cada homem ou mulher deve ter as mesmas oportunidades para poder optar com inteira liberdade sobre seu futuro profissional. A chave do êxito da single-sex education, segundo Gurian, radica precisamente no equilíbrio entre o reconhecimento da diferença e a garantia da igualdade entre os sexos.
Compreender e aceitar a existência de diferenças biológicas entre os sexos nos permite aceitar também a existência de diferentes formas de compreensão e aprendizagem entre meninos e meninas. Ignorar estas diferenças na maturidade, na socialização e nas capacidades e preferências de uns e de outros, afeta a igualdade de oportunidade, que fica frustrada, ao impedir que meninos e meninas desenvolvam ao máximo suas potencialidades e capacidades.

Como uma forma de ampliar a divulgação no Brasil do modelo de organização escolar single-sex, Solar vai promover, em outubro deste ano, o 5º Congresso Latino-americano de Educação Single-sex, em Curitiba. A ideia é justamente estabelecer um fórum de debate sobre o enriquecimento que esse modelo educativo pode trazer para a educação brasileira.

Para saber mais:
http://www.diferenciada.org
http://www.easse.org

Home


http://www.ncgs.org

Baixo desempenho do Brasil em teste da OCDE revela também desigualdade de gênero na educação

Estudo mostra que meninos brasileiros de 15 anos tiveram notas piores que a média em testes de conhecimentos e que meninas mostram dificuldades em problemas matemáticos

Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) detectou disparidades no desempenho escolar de meninos e meninas no Brasil.
Com base nos resultados de seu Programa Internacional de Avaliação de Desempenho Escolar (Pisa), que mede o desempenho de adolescentes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, a entidade mostra que o percentual de meninos com baixa pontuação nos testes é de mais de 45% no Brasil, enquanto meninas ficam abaixo de 40%.
Os dados são relacionados ao ano de 2012.
Em ambos os casos, o país ficou bem distante da média dos países-membros da OCDE, que é de cerca de 15% para meninos e 9% para meninas.

Sub-representação
Mas na avaliação da resolução de problemas de matemática e de ciências, a relação de gênero se inverte. No Brasil, meninos superam meninas entre 20 e 30 pontos na pontuação total do teste. Segundo cálculos da OCDE, isso equivaleria ao resultado de quase oito meses a mais de escola para os meninos.
“O Brasil tem um grande número de meninos que não conseguem atingir níveis básicos de eficiência em leitura, matemática e ciências. Ao mesmo tempo, é um dos países com uma das maiores disparidades de gênero nos estudos de matemática e ciência. São resultados preocupantes porque o país precisará de estudantes com boas qualificações nessas áreas se quiser incrementar seu potencial de crescimento econômico nos próximos anos”, disse à BBC Brasil Francesca Borgonovi, co-autora do estudo e analista de educação da OCDE.
A disparidade nessas áreas não é uma exclusividade do Brasil e se reflete também no ensino superior, em que mulheres estão sub-representadas. Segundo a OCDE, em todos os países estudados apenas 14% das mulheres jovens que entraram na universidade pela primeira vez em 2012 escolheram campos relacionados à ciência, incluindo engenharia, indústria e construção. O percentual masculino foi de 39%.
Um ponto-chave do estudo da OCDE é o que a entidade classifica como ansiedade dos alunos diante de disciplinas como a matemática. Em média, detectou-se um índice de 27% de meninos e de 34% de meninas admitindo “grande nervosismo” diante da resolução de problemas matemáticos.
No Brasil, os índices saltam para 43% dos meninos e 54% das meninas.

Videogames

O maior número geral de meninos falhando em obter níveis básicos em leitura, matemática e ciências se deve a uma série de fatores, segundo a OCDE. Há evidências de que podem ser causadas por diferenças de comportamento de gênero. Meninos, por exemplo, gastam uma hora a menos por semana fazendo o dever de casa do que as meninas – em média, elas dedicam 5,5 horas semanais para tanto.
Outro ponto é a questão dos videogames: o estudo mostra uma diferença surpreendente no uso destes aparelhos eletrônicos fora do horário de escola. Mais de 60% dos meninos jogam videogame com frequência, número que cai para 41% entre as meninas. A OCDE sugere que o passatempo esteja sacrificando hábitos de leitura de meninos.
A OCDE recomenda uma série de medidas como um pacote de soluções. Elas começam no lar, com pais dando apoio e incentivos iguais para filhos e filhas – algo que ainda é uma espécie de tabu nos países analisados pelo estudo, em que pais estavam mais propensos a esperar que meninos trabalhassem em um campo da ciência, tecnologia, engenharia ou matemática mesmo quando seus filhos e filhas de 15 anos de idade obtinham o mesmo desempenho em matemática.
Para o órgão, no entanto, as medidas passam também por uma atenção especial de professores, sobretudo aos alunos socioeconomicamente desfavorecidos. Um ponto especificamente ligado ao Brasil, já que a OCDE constatou uma diferença, por exemplo, de 83 pontos no desempenho em matemática em favor de estudantes de escolas particulares sobre os de escola pública, por exemplo.

05/03/2015 08h27 – Atualizado em 05/03/2015 08h27 G1 Educação